Pobres que morrem como
ricos
Toronto,
29/11/2007 – Especialistas em saúde alertam que as
mortes por ataques cardíacos, derrames cerebrais e
diabete, causadas por doenças crônicas não infecciosas,
acabam com mais do dobro de vidas do que outras que são
infecciosas, com Aids, malária ou tuberculose. Nos
próximos 10 anos, cerca de 388 milhões de pessoas
morrerão por causa destas doenças que podem ser
prevenidas, provocadas fundamentalmente pelo hábito de
fumar, uma dieta ruim e falta de exercício físico.
Embora sejam considerada com freqüência “doenças de
ricos”, a maioria destas mortes ocorreram em países
pobres, segundo os autores de um artigo publicado na
última edição da revista científica Nature.
“Enfrentamos uma crise sobre a qual poucos políticos e
funcionários governamentais estão ao par”, alertou o
principal autor do estudo, Abdallah S. Daar, do
não-governamental Centor McLaughlin-Rotman de Toronto.
Os países em desenvolvimento e as organizações de ajuda
sanitária se concentram quase exclusivamente nas doenças
infecciosas. “Mas isto equivale a apagar um fogo em um
prédio em chamas desde o térreo até a cobertura”, disse
Daar as IPS. A boa notícia é que existe uma solução
fácil para prevenir estas enfermidades não
transmissíveis.
“Com uma ação concertada podemos evitar, pelo menos, 36
milhões de mortes prematuras até 2015. Alguns destes
falecimentos serão de pessoas com menos de 70 anos”, diz
o artigo da Nature. O habito de fumar é a causa que pode
ser combatida da maneira mais simples e o lugar óbvio
para começar a agir, acrescenta. As mortes relacionadas
com o tabaco chegam a cinco milhões de pessoas ao ano e
estima-se que chegarão a 10 milhões até 2030, com a
maior parte dos casos no Sul em desenvolvimento,
informou a Fundação Mundial do Pulmão. Em comparação, a
Aids mata dois milhões de pessoas e a tuberculose três
milhões por ano. Além disso, afirmam os autores, as
taxas de mortalidade se estabilizaram ou estão
diminuindo na maioria dos países.
A exposição das crianças à fumaça de tabaco é “incrível”
na China, Índia, Oriente Médio e outras regiões do
mundo, disse Daar. Fumar afeta os pulmões, causa câncer
e contamina o meio ambiente, entre tantos males que
provoca, acrescentou. As empresas de tabaco, que estão
perdendo terreno nos países ricos devido aos altos
impostos e às campanhas de prevenção, concentram seu
grande poder publicitário nos países pobres, que apenas
podem fazer frente ao custo de comprar um produto
altamente viciante e ao que o hábito de fumar impõe
sobre seus sobrecarregados sistemas de saúde pública.
Campanhas educativas e a proibição de publicidade de
cigarros são dois meios que podem ser usados para
reduzir o número de fumantes. Milhões de vidas poderiam
ser salvas se fossem adotadas as recomendações da
Convenção Marco sobre Controle do Tabaco da Organização
Mundial da Saúde. Mas, muitos países precisam de ajuda
para colocá-las em prática, disse Daar. Entre as
recomendações que Daar e os outros autores do artigo
definem com os “20 Grandes Desafios” se encontra
converter estas doenças crônicas não infecciosas em uma
“prioridade política”, também promovendo estilos de vida
mais sãos. Os governos também devem fazer cumprir
rígidas regulamentações para desestimular o consumo de
tabaco, álcool e comidas não saudáveis, acrescentaram.
A falta de exercícios está custando milhões de mortes
prematuras que anularão os avanços feitos na redução das
doenças infecciosas”, disse aaips Stig Pramming,
diretor-executivo da Aliança para a Saúde de Oxford. “Os
males crônicos não transmissíveis constituem a maior
fonte de enfermidade e falta de capacidade em todos os
países do mundo, com a única exceção dos da África
subsaariana”, acrescentou. De todo modo, nesta região
ainda há pessoas que estão consumindo mais comidas não
saudáveis, tomando bebidas que contêm açúcar e não
fazendo exercício físico suficiente. “Alguns morrem de
doenças coronárias antes de completar 40 anos”, disse
Daar.
O desafio para a comunidade internacional é levar o
desenvolvimento aos países pobres mas sem as suas
conseqüências negativas. Muita ênfase no
desenvolvimento, sem considerar a saúde, gera situações
como a que atravessa a Rússia, onde o alto crescimento
da economia convive com uma redução de 10 anos na
expectativa de vida, alertou Pramming. No caso dos
homens russos, sua expectativa de vida caiu para 58
anos, em média, contra 72 entre os britânicos. “Se a
Rússia não reverter esta tendência, sua economia também
começará a declinar”, acrescentou.
Por sua vez, os Estados Unidos enfrentam uma explosão de
casos de obesidade, que afetam 25% da população adulta.
Se nada for feito para reverter este quadro, o custo em
matéria de saúde, atualmente estimado em US$ 100 bilhões
ao ano, ficará tão alto que a economia do país estará em
problemas, acrescentou Pramming. Nesse país – e em todo
o mundo – a comida não saudável é muito mais barata do
que a saudável, por isso os pobres são os mais afetados
por essas doenças não contagiosas. “Os governos têm que
baratear o custo de uma dieta saudável, se necessário
através de subsídios”, afirmou o especialista.
É preciso uma mudança nas políticas que favoreçam as
agroindústrias e a produção em massa: “É um problema
complexo, mas não particularmente difícil”, afirmou
Pramming. Muitos dos passos que devem ser dados se
superpõem com os necessários para enfrentar a questão da
mudança climática. Por exemplo, fazer com que os
alimentos frescos sejam acessíveis localmente, em lugar
de confiná-los em supermercados distantes que obrigam o
uso do automóvel para sua compra. “Uma vida saudável
contribui para ter planeta são”, concluiu.
Fonte:IPS/Envolverde