Portus: ainda sem solução
De
forma inédita, durante três horas foi discutida a situação do Fundo
de Pensão dos Portuários, o Portus, no Senado Federal, na manhã do
último dia 06/05. O plenário Petrônio Portela foi ocupado por homens
e mulheres, a grande maioria de cabelos brancos, vindos de vários
portos do Brasil – Bahia, Vitória, Santos, Natal, Rio de Janeiro,
Maceió e Pará.
De concreto nada foi definido, mas, segundo o
presidente da Federação Nacional dos Portuários (FNP), Eduardo Lírio
Guterra, a audiência foi importante para sensibilizar os
parlamentares e mostrar ao governo federal que a categoria está
mobilizada e preparada para defender a instituição. “A audiência no
Senado deixou claro para aquela casa que existe um fundo de pensão
patrocinado por empresa estatal, que está em vias de ser liquidado”.
Ao
afinal da audiência, o senador Paulo Paim (PT-RS), da Comissão de
Direitos Humanos e Legislação Participativa (CDH), que convocou a
audiência pública do Portus, disse que o governo federal está
sensível ao problema e que tinha recebido telefonemas da Casa Civil
e do Ministério do Trabalho (sem revelar o nome dos interlocutores),
na noite anterior à audiência, para informar que não será tomada
nenhuma medida contra o Portus no dia 14 de maio, prazo final
determinado pela Secretaria de Previdência Complementar, órgão
ligado ao Ministério da Previdência Social, para solucionar o
problema do fundo.
Os sindicalistas e integrantes do Portus sabem
que o caminho ainda é longo e difícil. Na audiência, o ministro
interino da Secretaria Especial de Portos (SEP), José Roberto
Correa, disse que a questão do Portus é um dos pontos de extrema
importância para a sua secretaria, mas que, infelizmente, naquele
momento não tinha uma solução para apresentar. “Lamentavelmente eu
não tenho ainda uma solução. Estamos trabalhando muito. Nesta
semana, temos reuniões para tratar o assunto, inclusive com o
empenho da Casa Civil”.

Representante da SEP lamenta
não ter 'boas novas' para os participantes do Portus
Serra admitiu a responsabilidade das companhias
docas na debilidade do Portus, mas defendeu uma auditoria nos
números deficitários do fundo de pensão dos portuários. “A
Secretaria entende que não adianta injetar dinheiro naquilo que não
nos dá segurança”.
Os parlamentares que participaram da audiência
foram críticos à posição do governo de propor a extinção do Portus,
já que é o próprio governo um dos grandes devedores do fundo. O
senador Renato Casagrande (PSB-ES) observou que o governo federal
tem uma prática de socorrer bancos quebrados ou falidos. “E socorre
por que?”, indagou, “para não deixar os correntistas no prejuízo.
Aqui nós temos 12 mil trabalhadores – nove mil aposentados e
aproximadamente três mil na ativa. Neste “banco” quebrado vão 30
mil, 40 mil entrar em dificuldade. Já que se pode proteger o setor
econômico, pode e deve proteger os trabalhadores brasileiros”.
Ao
mesmo tempo, o senador disse que a situação deve ser vista sem
demagogia, “chegamos a situação como essa por causa da
irresponsabilidade das companhias docas que, no passado, não pagaram
o sistema. E chegamos a isso por irresponsabilidade de gestões
passadas (do Portus) que administraram mal o fundo”.
O parlamentar informou, ainda, que está sendo
solicitada uma reunião com o ministro da Fazenda, Guido Mantega,
para que seja exposta a situação do Portus.
Já a deputada federal Iriny Lopes (PT-ES)
defendeu que o País precisa garantir aos seus trabalhadores o
direito de ter uma aposentadoria com segurança. “Existe um contrato
que vocês (referindo-se aos portuários) já cumpriram. E os contratos
no nosso País precisam ser respeitados e assegurados. Nós estamos
trabalhando junto ao governo no sentido de garantir que até o dia 14
(de maio) exista uma solução e o Portus não seja liquidado. Caberá
ao governo a responsabilidade de fazer com que os trabalhadores
dessa categoria não sejam penalizados”.

Para a deputada Iriny
Lopes, contratos precisam ser respeitados e assegurados
Estiveram presentes à audiência e apoiaram o
movimento dos portuários em defesa do Portus, a deputada federal
Alice Portugal (PcdoB-BA), os senadores Heráclito Fortes (DEM-PI),
José Nery (PSOL-PA), Eduardo Suplicy (PT-SP) e Gilberto Goellner (DEM-PI).
O sindicalista Pedro Luiz Pacheco, do Sindicato dos Conferentes de
Capatazia do Porto de Santos, lamentou, publicamente na audiência, a
ausência dos deputados federais Beto Mansur (PP-SP) e Márcio França
(PSB-SP), que são da região onde está o maior porto da América
Latina e o maior peso na balança comercial do País, o Porto de
Santos.
Avaliação do presidente
da Federação dos Portuários
PortoGente – Qual a avaliação que o senhor faz
de todo esse movimento realizado hoje em Brasília?
Eduardo Guterra
– Eu
faço uma avaliação positiva, porque o nosso objetivo foi alcançado.
Ou seja, deixar claro para o Congresso Nacional que existe um fundo
de pensão patrocinado por empresa estatal e que está em vias de ser
liquidado. E que suas patrocinadoras vão continuar aí por muito
tempo, que atuam num setor estratégico para a economia do nosso
País, que o sistema portuário cresce muito mais do que a economia do
País. Nós conseguimos atrair para a nossa causa parlamentares da
base de sustentação do governo e também da oposição. Isso quer dizer
que qualquer indicação do governo para o Congresso no sentido de
aporte financeiro para o Portus fica mais fácil conseguirmos a
aprovação.
PortoGente
– Na audiência, em vários pronunciamentos se deixou claro que o
Portus não quer injeção de dinheiro ou aporte financeiro, mas que
seja paga uma dívida.
Eduardo Guterra
–
Acredito que isso seja uma questão de conceito. Quem deve são as
patrocinadoras (as companhias docas). Obviamente como as
patrocinadoras são sociedade de economia mista, o governo tem de
fazer aporte financeiro nas companhias docas para que elas paguem a
dívida que têm com o Portus. Então, o aporte não é para o Portus,
mas para as patrocinadoras.
Nós já vimos a proposta do
ministro Pedro Brito (da Secretaria Especial de Portos). Ele propõe
um acordo para que se coloque 60 milhões de reais por ano no Portus,
e com isso equilibraria o fluxo de caixa do fundo. Agora precisamos
analisar, primeiro, se isso vai ter correção anual. E segundo, o que
nos garante que os governos que virão vão cumprir essa proposta do
ministro Pedro Brito. Por isso, entendo que uma medida provisória
seria melhor para resolver o problema do Portus.
PortoGente – Por que a Secretaria de Previdência
Complementar (SPC) determinou esse prazo de 60 dias para o Portus se
normalizar, caso contrário será liquidado?
Eduardo Guterra
– O
Portus tem ativo de 293 milhões de reais, que são recursos
imediatos e tem aplicações que são em imóveis, que pode vender, mas
demora. Então, o secretário (da Previdência Complementar) fez essa
leitura, e levando em consideração somente o dinheiro bom (dinheiro
ao vivo), nós só temos vida até março do ano que vem. O secretário
assumiu recentemente e ele está impondo uma nova política na
secretaria de alertar que o Portus pode ser liquidado, como qualquer
fundo de pensão pode ser liquidado. O problema de desentendimento de
secretaria com os ministérios do Planejamento, Fazenda, Previdência
Social não é um assunto que nos cabe. Sentimos que está faltando
essa junção de poderes para resolver o problema do Portus. Nós não
podemos esperar chegar o ano que vem para ver se é verdade ou não
que o Portus vai ser liquidado ou não.
PortoGente – Quem definiu a data 14 de
maio para começar o processo de extinção do Portus? O ministro
interino José Roberto Correa Serra disse que não conhece essa data.
Eduardo Guterra – Essa data de
14 de maio foi dada no dia 14 de março em reunião com o secretário
de Previdência Complementar, que disse ao presidente do Portus que
se até o dia 14 de maio não tivessem sido tomadas medidas efetivas
para resolver o problema do Portus, ele entraria em processo de
liquidação.
PortoGente – Esse prazo foi parado hoje
(terça-feira, 6) pelo que o senador Paulo Paim informou hoje na
audiência pública, é isso?
Eduardo Guterra
–
Quem falou isso foi o senador Paulo Paim, mas não é a posição do
secretário da Previdência Complementar (Ricardo Pena Pinheiro). Por
três vezes ele falou desse prazo: numa reunião com a diretoria do
Portus, no dia 14 de março; na Secretaria Especial de Portos, onde
estavam os presidentes das companhias docas; e falou para nós, da
FNP, numa reunião que tivemos com ele na semana passada. Nessa
reunião, nós questionamos se seríamos avisados de alguma medida da
SPC, mas ela disse que não teríamos de ser avisados.

Estiveram presentes portuários de
Salvador, Vitória, Santos, Natal, Rio de Janeiro e Maceió.
PortoGente – Então vocês estão sem nenhuma
garantia quanto ao futuro do Portus?
Eduardo Guterra
–
Efetivamente nós não temos nada. O que temos é um esclarecimento
maior da situação do Portus para o Congresso Nacional. É uma atenção
maior do Palácio do Planalto e dos ministérios para o problema a
partir do movimento que estamos fazendo, das assembléias, do estado
de greve e agora com essa audiência pública, o cenário é outro.
Agora as autoridades estão conscientes da necessidade de resolver de
vez a questão do Portus.
PortoGente – Quais os próximos passos do
movimento em defesa do Portus?
Eduardo Guterra
– Nós
tiramos a continuidade da mobilização. Contatos com parlamentares,
prefeitos, câmaras de vereadores, atos públicos, passeatas. Esse
papel os sindicatos vão fazer, assim como manter a sociedade
esclarecida sobre o que significa a extinção do Portus. No dia 15
próximo, vamos fazer uma reunião com os sindicatos do Brasil inteiro
na Federação Nacional dos Portuários, aqui em Brasília.
A jornalista do
PortoGente, Rosângela Ribeiro Gil, acompanhou a realização da
audiência pública no Senado Federal, nesta terça-feira (6), a
convite da Federação Nacional dos Portuários