Mais uma vez, a
realidade volta a exigir a reforma política
Os últimos acontecimentos trouxeram novamente para o centro da agenda de
debates a necessidade do Brasil reformar seu sistema político. Como esta
questão foi um dos temas centrais deste meu mandato, ocupei a tribuna da
Câmara para voltar a chamar a atenção sobre isto.
O Brasil do governo Lula, está
vivendo um momento vitorioso e de inúmeras conquistas que o colocou na
vanguarda da justiça social, da soberania e do desenvolvimento
econômico. Processualmente, saímos de um modelo econômico neoliberal
para um modelo econômico centrado no desenvolvimento, no crescimento
econômico e na distribuição de renda. Mas a reforma das instituições
políticas é uma questão, deste nosso projeto para mudar o Brasil, que
ainda está pendente.
Fortalecer os partidos políticos com
o princípio da fidelidade partidária renovável de 4 em 4 anos,
privilegiar o programa, o projeto do partido e não a votação uninominal,
instituindo o sistema de lista e tornar mais transparente a relação
entre o dinheiro e a política, via financiamento público das campanhas,
com conta e controle públicos, são questões que compõe o núcleo desta
reforma que só pode ser realizada via revisão constitucional. Além
disso, devemos aperfeiçoar o processo legislativo, tornando mais preciso
o papel da Câmara dos Deputados e do Senado e melhorar a qualidade da
participação popular na iniciativa de leis, aumentando suas
prerrogativas.
E “como faríamos esta revisão
constitucional? Pelo processo de Assembleia Constituinte exclusiva? Eu
acho que é inviável. Pelo processo de emendamento constitucional com
maioria absoluta? Isso poderá cair no Supremo. Qual seria o caminho
correto? Com base na emenda de Luiz Carlos Santos, a PEC 157/ 2003, que
está pronta para ser votada no plenário, nós faríamos uma emenda
aglutinativa propondo o seguinte: o Congresso Nacional, portanto Câmara
dos Deputados e Senado Federal, reunir-se-ia como Congresso Nacional,
unicameralmente — portanto, haveria Câmara e Senado aqui neste plenário
— , com maioria de três quintos, para não esbarrar numa ação do Supremo.
Nós votaríamos os artigos da
Constituição fazendo um debate conjunto entre Deputados e Senadores. Até
tenho aqui uma proposta, tirada dessa emenda constitucional, que são os
artigos que tratam dos partidos, da fidelidade, do financiamento
público, papel da Câmara e do Senado. Nós votaríamos essa emenda
constitucional e, em 2011, paralelamente ao processo normal de Câmara e
Senado, nós teríamos reunião do Congresso Nacional e, com maioria de
três quintos, votaríamos os artigos da reforma política, para entrar em
vigor em 2012.”
É esta a síntese da minha proposta!
Para concluir, chamei também atenção
para a necessidade de discutirmos o papel regulamentador da Justiça
Eleitoral. Temos que ter uma lei eleitoral, uma lei orgânica do processo
eleitoral que dê responsabilidade aos partidos e legitimidade aos
portadores de mandato. Não existe nenhuma instituição cuja legitimidade
seja tão grande como aqueles que são eleitos. E é no processo eleitoral
onde se realiza o princípio democrático de que todo poder emana do povo.
E é sagrado o direito do eleitor de ter acesso a todas as informações
sobre os partidos políticos, seus programas e seus candidatos e ele deve
ser garantido pelas instituições.
Hoje há uma ideia, presente
principalmente na mídia e em algumas instâncias da burocracia de estado,
que a eleição é algo que macula a democracia, que prejudica a
democracia, que a eleição é uma competição entre bandidos e corruptos.
Esta visão tenta transferir para outras instituições a legitimidade do
poder. Mas se o poder não nasce do voto, vai nascer de onde?
Por isso, a crise da política não
será solucionada pelo juiz, pelo procurador ou pelo delegado. Ela tem
que ser solucionada por uma reforma política ampla, democrática e
profunda. Até porque a razão de ser da política sustenta-se no princípio
da soberania popular.
José Genoino