“Custo Brasil” ou “lucro Brasil”?
A elite patronal adora falar no tal “Custo
Brasil”. Ambiciosa e marota, ela difunde que a economia é vítima da alta carga
tributária e do elevado custo da força de trabalho. Repetitiva, ela usa sua
mídia para defender a redução dos impostos e o corte dos direitos trabalhistas.
Os editoriais do jornalões e os comentários na TV são unânimes na defesa deste
"pensamento único" neoliberal.
Felizmente, ainda há jornalistas na velha mídia que não se submetem às
bravatas empresariais e exercitam com ética a profissão – pesquisando as reais
causas que entravam o desenvolvimento da economia. É o caso do jornalista Joel
Leite, especialista no setor automobilístico, que produziu uma reportagem no UOL
que desmascara o discurso do Custo Brasil. Reproduzo alguns trechos:
O carro mais caro do mundo
“O Brasil tem o carro mais caro do mundo. Por quê? Os principais
argumentos das montadoras para justificar o alto preço do automóvel vendido no
Brasil são a alta carga tributária e a baixa escala de produção. Outro vilão
seria o “alto valor da mão de obra”, mas os fabricantes não revelam quanto os
salários – e os benefícios sociais - representam no preço final do carro. Muito
menos os custos de produção, um segredo protegido por lei.
A explicação dos fabricantes para vender no Brasil o carro mais caro do
mundo é o chamado Custo Brasil, isto é, a alta carga tributária somada ao custo
do capital, que onera a produção. Mas as histórias que você verá a seguir vão
mostrar que o grande vilão dos preços é, sim, o Lucro Brasil. Em nenhum país do
mundo onde a indústria automobilística tem um peso importante no PIB, o carro
custa tão caro para o consumidor (...).
Com um mercado interno de um milhão de unidades em 1978, as fábricas
argumentavam que seria impossível produzir um carro barato. Era preciso aumentar
a escala de produção para, assim, baratear os custos dos fornecedores e chegar a
um preço final no nível dos demais países produtores.
Pois bem: o Brasil fechou 2010 como quinto maior produtor de veículos do
mundo e como quarto maior mercado consumidor, com 3,5 milhões de unidades
vendidas no mercado interno e uma produção de 3,638 milhões de unidades. Três
milhões e meio de carros não seria um volume suficiente para baratear o produto?
Quanto será preciso produzir para que o consumidor brasileiro possa comprar um
carro com preço equivalente ao dos demais países?
Carga tributária caiu e preço do carro subiu
O imposto, o eterno vilão, caiu nos últimos anos. Em 1997, o carro 1.0
pagava 26,2% de impostos, o carro com motor até 100cv recolhia 34,8% (gasolina)
e 32,5% (álcool). Para motores mais potentes o imposto era de 36,9% para
gasolina e 34,8% a álcool. Hoje – com os critérios alterados – o carro 1.0
recolhe 27,1%, a faixa de 1.0 a 2.0 paga 30,4% para motor a gasolina e 29,2%
para motor a álcool. E na faixa superior, acima de 2.0, o imposto é de 36,4%
para carro a gasolina e 33,8% a álcool.
Quer dizer: o carro popular teve um acréscimo de 0,9 ponto percentual na
carga tributária, enquanto nas demais categorias o imposto diminuiu: o carro
médio a gasolina paga 4,4 pontos percentuais a menos. O imposto da versão
álcool/flex caiu de 32,5% para 29,2%. No segmento de luxo, o imposto também
caiu: 0,5 ponto no carro e gasolina (de 36.9% para 36,4%) e 1 ponto percentual
no álcool/flex.
Enquanto a carga tributária total do País, conforme o Instituto
Brasileiro de Planejamento Tributário, cresceu de 30,03% no ano 2000 para 35,04%
em 2010, o imposto sobre veículo não acompanhou esse aumento. Isso sem contar as
ações do governo, que baixaram o IPI (retirou, no caso dos carros 1.0) durante a
crise econômica. A política de incentivos durou de dezembro de 2008 a abril de
2010, reduzindo o preço do carro em mais de 5% sem que esse benefício fosse
totalmente repassado para o consumidor.
As montadoras têm uma margem de lucro muito maior no Brasil do que em
outros países. Uma pesquisa feita pelo banco de investimento Morgan Stanley, da
Inglaterra, mostrou que algumas montadoras instaladas no Brasil são responsáveis
por boa parte do lucro mundial das suas matrizes e que grande parte desse lucro
vem da venda dos carros com aparência fora-de-estrada. Derivados de carros de
passeio comuns, esses carros ganham uma maquiagem e um estilo aventureiro.
Alguns têm suspensão elevada, pneus de uso misto, estribos laterais. Outros têm
faróis de milha e, alguns, o estepe na traseira, o que confere uma aparência
mais esportiva.
Margem de lucro é três vezes maior que em outros países
O Banco Morgan concluiu que esses carros são altamente lucrativos, têm
uma margem muito maior do que a dos carros dos quais são derivados. Os técnicos
da instituição calcularam que o custo de produção desses carros, como o CrossFox,
da Volks, e o Palio Adventure, da Fiat, é 5 a 7% acima do custo de produção dos
modelos dos quais derivam: Fox e Palio Weekend. Mas são vendidos por 10% a 15% a
mais.
O Palio Adventure (que tem motor 1.8 e sistema locker), custa R$ 52,5 mil
e a versão normal R$ 40,9 mil (motor 1.4), uma diferença de 28,5%. No caso do
Doblò (que tem a mesma configuração), a versão Adventure custa 9,3% a mais. O
analista Adam Jonas, responsável pela pesquisa, concluiu que, no geral, a margem
de lucro das montadoras no Brasil chega a ser três vezes maior que a de outros
países.
O Honda City é um bom exemplo do que ocorre com o preço do carro no
Brasil. Fabricado em Sumaré, no interior de São Paulo, ele é vendido no México
por R$ 25,8 mil (versão LX). Neste preço está incluído o frete, de R$ 3,5 mil, e
a margem de lucro da revenda, em torno de R$ 2 mil. Restam, portanto R$ 20,3
mil.
Adicionando os custos de impostos e distribuição aos R$ 20,3 mil, teremos
R$ 16.413,32 de carga tributária (de 29,2%) e R$ 3.979,66 de margem de lucro das
concessionárias (10%). A soma dá R$ 40.692,00. Considerando que nos R$ 20,3 mil
faturados para o México a montadora já tem a sua margem de lucro, o “Lucro
Brasil” (adicional) é de R$ 15.518,00: R$ 56.210,00 (preço vendido no Brasil)
menos R$ 40.692,00.
Isso sem considerar que o carro que vai para o México tem mais
equipamentos de série: freios a disco nas quatro rodas com ABS e EBD, airbag
duplo, ar-condicionado, vidros, travas e retrovisores elétricos. O motor é o
mesmo: 1.5 de 116cv. Será possível que a montadora tenha um lucro adicional de
R$ 15,5 mil num carro desses? O que a Honda fala sobre isso? Nada. Consultada, a
montadora apenas diz que a empresa “não fala sobre o assunto”.
Na Argentina, a versão básica, a LX com câmbio manual, airbag duplo e
rodas de liga leve de 15 polegadas, custa a partir de US$ 20.100 (R$ 35.600),
segundo o Auto Blog. Já o Hyundai ix35 é vendido na Argentina com o nome de Novo
Tucson 2011 por R$ 56 mil, 37% a menos do que o consumidor brasileiro paga por
ele: R$ 88 mil.
........................................................................................................................
Fonte:(Blog do Miro)