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dia,/o mais frágil deles/entra sozinho em nossa casa,/rouba-nos a luz,
e,/ conhecendo nosso medo,/arranca-nos a voz da garganta./E já não
podemos dizer nada.”
Eduardo Alves da Costa (in “No Caminho com Maiakovski”)
Nós,
que nascemos e crescemos em plena vigência do Golpe Militar de 1964,
quando há oportunidade, perguntamos a nossos pais – que bravamente
combateram o regime de exceção - como era a Santos de antes da
instauração da ditadura fascista, covarde, assassina e corrupta (-com
perdão para os pleonasmos).
Sim, pois cotidianamente nos recusamos a crer que a cidade de
outrora – que recebera os epítetos gloriosos de “Moscou Brasileira” e
“Porto Vermelho” – é a mesma de hoje:
chafurdada no marasmo e, por quase uma década, vítima (-ou refém,
escolha!) do mais rampeiro neo-malufismo (-olha aí outro pleonasmo).
Há alguns anos, os setores metidos a sofisticados do capitalismo
selvagem (-e existe outro?) vestiram a trágica
fantasia do neoliberalismo e
lograram relativo êxito (muito bem assessorados pelos setores venais da
dita “grande” mídia – essa mesma que, atualmente, representa o
PIG-Partido da Imprensa Golpista) em impingir à sociedade falsos
“determinismos históricos”, que vieram a originar a priorização de temas
fúteis sempre vivos no imaginário burguês. É a manutenção daquela velha
concepção que onde o
branco-burguês-cristão-capitalista governa, o povo é feliz e pacífico;
onde a esquerda é poder, todos são infelizes e oprimidos.
Daí, a interminável criação de factóides vomitados
diariamente sobre nossas cabeças enaltecendo “temas importantíssimos”
como a construção de túneis subaquáticos; aeroportos; trens de última
geração (-nem temos os de primeira, ainda...); destinação de mais e mais
áreas públicas para criação de estacionamentos (-Ora! Vamos tapar os
históricos canais de Saturnino de Brito?); o “turismo de negócios” e
suas produções arquitetônicas e urbanísticas de estética abjeta e
conseqüências nefastas; o incentivo
indecente aos grandes empreendimentos imobiliários que
expulsam as populações de média e baixa renda para áreas menos
assistidas e degradam ainda mais a paisagem da cidade; o descaso com
políticas públicas voltadas para a saúde, transporte de massas,
educação, cultura, meio ambiente, urbanização séria e, principalmente, a
velha ladainha de que o mundo e nossas vidas devem ser regulados por
este “ser” chamado “mercado” (-legítimo filho, com DNA e tudo, da corja
neoliberal).
Para estes, o poder público só serve para assumir
prejuízos e distribuir mordomias para uma casta que sobrevive
secularmente fincada à jugular do Estado.
Sim, a cidade que foi o combativo “Porto Vermelho” e
recebeu “atenção especial” dos organismos de repressão, nos dias atuais
apenas aceita que existam as turmas do “sim (senhor)” e do “amém”.
As que apõem suas conveniências à frente de seus
princípios (-se é que os possuem). Se você resolve divergir, discordar
até, as contra argumentações nunca são políticas (-porque não
agüentariam tal debate), são desqualificadoras. Começam com “moleque”,
“invejoso”, “frustrado”, “preterido” e vão ladeira abaixo, como ensinam
os manuais do jeito neo-lib e neo-con de ser.
Temos saudade da beleza aguerrida ostentada pela “velha”
Santos, motivo de orgulho e não da chacota atual -que nem mais nos
coloca (em termos de avaliação político-estratégica) entre os 130
municípios mais influentes da nação brasileira. A “nova” Santos dessa
turma é a recordista per capta em shopping centers, vazia
em produções culturais, palco de conchavos burlescos num cenário de
altas e patéticas torres.
Temos saudade da mobilização das gentes de nossa
cidade na busca por soluções dos problemas e desafios que se apresentam.
Dos artistas que lutavam e não aceitavam “cala a boca”
algum, seja em forma de espaço agendado para um evento ou uma
“premiação” maior, com cessão de espaço público sem os devidos percalços
legais.
Saudade dos tempos em que, cidadãos “de-bem”, recebíamos
de braços abertos, sem ranço ou preconceitos, quem aqui viesse aportar.
Não sejamos robóticos cordeiros, posto que não somos
máquinas: seres humanos é que somos.
Nossa fortuna é que, além de não termos nascido com
etiqueta de preço (-por conta do berço), somos capazes de lembrar do
velho Churchill (-um conservador): “Ninguém engana a todos durante todo
o tempo”.
Olavo Dáda
é cantor, compositor e arquiteto, com prêmios em música, cinema, teatro
e literatura.
Raimundo José Pimenta Araujo Filho
é arquiteto e empresário.
Ambos são nascidos em Santos e editam o Cordel Caiçara.
www.cordelcaicara.zip.net e
www.cordelcaicara.com.br |